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Situações

Covenant quebrado: a conversa com o banco antes de ele ligar

O rompimento acontece no fechamento do balanço, e o banco só descobre quando recebe as demonstrações. Entre uma coisa e outra existe uma vantagem que vence sozinha.

A empresa sabe antes do banco, e não usa isso

Covenant é a promessa financeira dentro do contrato de crédito: manter a dívida líquida abaixo de um múltiplo do resultado, manter cobertura de juros acima de um patamar, manter capital de giro positivo, não dar garantia a terceiros sem autorização.

O rompimento acontece no fechamento do balanço, e o banco só descobre quando recebe as demonstrações — semanas ou meses depois. Quase todo mundo usa essa vantagem para esperar. É a decisão mais cara do ciclo.

O que acontece do outro lado quando o banco descobre sozinho

Quebra de covenant não é só um evento contratual: é um evento de classificação de risco. O crédito é reclassificado, a provisão sobe, e o custo daquela operação para o banco aumenta. A partir daí a conta do gerente muda — ele deixa de ganhar mantendo a relação e passa a ser cobrado por reduzir exposição.

Em muitos bancos existe um segundo movimento: a conta sai da carteira comercial e vai para uma área de recuperação. A pessoa que gostava da sua empresa deixa de decidir, e quem passa a decidir tem meta de recuperar valor, não de manter cliente.

Chegar antes é chegar enquanto ainda existe alguém do seu lado da mesa.

Três coisas que a quebra dispara

  • Vencimento antecipado. O contrato normalmente permite declarar vencida a dívida. Nem sempre o banco exerce — mas passa a ser uma opção dele, e é isso que muda o equilíbrio da conversa.
  • Contratos cruzados. A cláusula de inadimplemento cruzado considera vencidas outras dívidas quando uma vence. Uma quebra em um contrato pode ativar cinco, e a resposta está nos instrumentos, não no extrato.
  • Perda de linhas rotativas. Antes de executar, o banco reduz limite. A empresa descobre pela recusa de uma antecipação de recebível, não por comunicação — e aí o problema de covenant vira problema de capital de giro em uma semana.

O waiver tem preço, e é bom saber com o que se paga

Waiver é a dispensa formal do descumprimento. Ele existe, é comum, e não é de graça. O preço costuma vir de quatro formas:

  1. 01Taxa maior no contrato dispensado;
  2. 02garantia adicional — mais aval, alienação de bem, cessão de recebível;
  3. 03amortização antecipada de parte do saldo;
  4. 04covenant novo, mais apertado, com prazo mais curto para a próxima aferição.

O quarto é o mais perigoso e o que menos se discute na hora. Waiver que traz covenant mais rígido para o trimestre seguinte compra três meses e marca a data da próxima crise. Se a projeção não mostra o indicador voltando ao patamar até lá, o waiver não resolveu — adiou, e com garantia a mais.

A pergunta certa não é “quanto custa o waiver”. É “o que eu estou entregando, e o indicador volta antes da próxima aferição?”.

O que levar à conversa

A diferença entre pedir e negociar é o material.

  • A quebra recalculada, feita por você. Chegue com o índice apurado, a memória de cálculo e o motivo. Banco que descobre sozinho pergunta o que mais não foi contado.
  • O fluxo de treze semanas. Não a projeção anual: caixa semanal, auditável, com premissas explícitas. É o documento que sustenta qualquer pedido de prazo.
  • A trajetória do indicador. Em que trimestre ele volta ao patamar, e por causa de qual medida concreta. Sem isso, “vamos melhorar” é opinião.
  • O mapa completo de dívida e garantias. Se você não souber a sua posição inteira, o banco saberá a dele e você negociará no escuro.
  • Uma proposta específica. Não “preciso de prazo”, mas “proponho carência de X meses, amortização em Y, com aferição recalculada em Z”. Proposta concreta muda a natureza da reunião: em vez de avaliar o seu risco, a pessoa passa a avaliar uma alternativa.

O que costuma custar caro

  • Esperar o balanço ser entregue. O tempo entre saber e contar é a única vantagem que a empresa tem, e ela vence.
  • Falar com um banco e não com os outros. Notícia circula, e o segundo a saber, sabendo por fora, endurece.
  • Prometer recuperação no trimestre seguinte sem plano. Promessa não cumprida custa mais que a quebra original: a segunda conversa começa com a credibilidade gasta.
  • Aceitar garantia adicional para ganhar poucos meses. Cada garantia entregue reduz o que sobra para negociar depois, e a próxima negociação vem numa posição pior.

Quando o covenant é o aviso, e não o problema

Às vezes a quebra é técnica: um evento não recorrente derrubou o indicador de um trimestre e a trajetória está bem. Aí o waiver é o instrumento certo e a conversa é curta.

Outras vezes o covenant é só o primeiro indicador a acender num painel que já estava piscando: margem caindo, prazo de recebimento alongando, dívida rolando cada vez mais cara. Nesses casos, negociar apenas o waiver trata o termômetro.

Distinguir os dois casos leva pouco tempo e depende dos mesmos números — projeção de caixa, ciclo, e a dívida com taxa média ponderada.

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